
Audrey Hepburn em sua famosa foto.
# Anatomia de um Crime
Sempre que advogados são retratados no cinema, ou estes são idealistas ou mercenários. Defensores do diabo ou protegendo os oprimidos, eles são convocados quando uma vitória no tribunal parece improvável e não medem esforços para obté-la.
Bem distante da figura de bom moço, Paul Biegler (James Stewart) aceita defender o tenente Frederick Manion (Ben Gazzara) da acusação de homicídio. Manion assassinou a tiros e diante de várias testemunhas o homem que sua esposa, Laura (Lee Remick) alega tê-la estuprado mais cedo naquela noite.
Depõe contra Manion, o comportamento de sua esposa. Ousada e provocante, Laura sabe como despertar o interesse de um homem e parece fazê-lo todo o tempo. Paira no ar a dúvida se a ocorrência do estupro foi real, ou se o crime foi decorrente de uma crise de ciúmes.
Independente do veredicto, assistir Biegler investigar as circunstância do assassinato e argumentar pela liberdade de seu cliente é puro deleite. Afinal, verdade, moral, ética (ou falta delas) também estão em jogo, e não apenas o destino do réu. Seria Laura uma adúltera? Teria Manion sofrido um episódio de insanidade temporária? Pouco importa o que não ajuda no caso.
Em um julgamento a realidade é construída a partir de fatos isolados, vendê-la como real ao júri depende da habilidade dos advogados. E nisto, Biegler é muito bom. Em tempos de CSI com todo seu aparato tecnológico e detetives cheios de brios, a película de Otto Preminger pode parecer datada. Contudo, isso não é o suficiente para derrubá-la. Não a toa, Anatomia de um Crime (Anatomy of a Murder, Estados Unidos, 1959) é considerado um clássico: ótimos atores, ótimo texto e personagens ambíguos. Uma pérola do cinema noir, sem dúvidas. O destaque é da atriz Lee Remick e sua Laura: sedutora, odiável e perfeitamente dúbia.
Trailer:
# Bonequinha de Luxo
Dona de um pequeno apartamento, um gato sem nome e um elegante guarda-roupa, Holly possui uma vida social bastante agitada. Entre festas e “amigos” ricos, ela não passa de uma garota sonhadora, deslumbrada e solitária. A mudança do escritor, e também michê, Paul Varjak (Goerge Peppard) para o apartamento vizinho é o mote para o surgimento de um romance delicado e uma forte amizade.
Paul é o único que sabe sobre o passado de Holly e conhece seus simples hábitos e prazeres. Ela insiste que são como irmãos e está decidida a casar-se com José da Silva Pereira (interpretado pelo espanhol José Luis de Villalonga), um rico brasileiro com o qual deverá viver no Rio de Janeiro. Mas Paul não está tão disposto a ficar sem ela. Há também Mr. Yunioshi (Mickey Rooney) um vizinho oriental muito mal caracterizado e exagerado que torce o nariz para a protagonista.
Depois de viver mocinhas em comédias românticas, freiras e professoras, Hepburn poderia ser uma escolha improvável para o papel de uma prostituta. E segundo algumas fontes, a própria atriz achava que este papel não cabia a ela. Contudo, desde a primeira cena, na qual uma deslumbrante Holly Golightly toma seu desjejum fitando uma vitrine da Tiffany’s, percebe-se porque essa é a sua mais icônica personagem. Uma vez que ela surge na tela é impossível imaginar outra estrela em seu lugar. O decurso da narrativa apenas reforça tal impressão: afinal quem poderia dar graça às cenas desastrosas de Mr. Yunioshi ou tornar tolerável a quase falta de carisma de Peppard? Somente ela sempre encantadora.
Todavia, o mérito não é apenas de Hepburn. A condição de Holly é apenas insinuada, e há um foco em suas características mais simpáticas. O mesmo pode ser dito quanto ao seu romance com Paul, cujo centro é o enamoramento entre os dois sem expressões de carícias e trocas sexuais. Anos mais tarde o recurso foi atualizado em Uma Linda Mulher, com igual êxito.
Curiosamente, em uma das cenas de Bonequinha de Luxo, Holly afirma que pérolas seriam um acessório “brega” para alguém de sua idade. Entretanto, a foto de Hepburn, caracterizada como a personagem, vestindo pérolas é tão famosa quanto a película. Também tornou-se clássica a canção Moon River, cantada por Hepburn e composta especialmente para que ela pudesse fazê-lo sem desafinar.
Audrey Hepburn canta Moon River:
# Gata em Teto de Zinco Quente
Ao descer do carro, Maggie (Elizabeth Taylor) é recebida por uma das sobrinhas de seu marido com uma massa de sorvete nas canelas. Como castigo, mergulha a cabeça da criança em um balde de sorvete. Mae (Madaleine Sherwood), mãe da garota, faz um alvoroço e solicita intervenção do marido que tenta por panos quentes na situação. Da janela, Brick (Paul Newman), marido de Maggie, observa. Tal cena, antecipa todos os conflitos que se desenrolarão sob aquele teto: Maggie e seus cunhados estão cheios de razões para odiar-se enquanto Brick mantem-se indiferente aos motivos deles. Ele já tem o seu para detestar a esposa.
Ex-jogador de futebol americano, Brick trocou os campos pelo álcool. E apesar d0s insistentes avanços de sua mulher, ele já não a toca. O pai dele, conhecido como Big Daddy (Burl Ives), está morrendo de câncer. E é do maior interesse de Maggie que seu marido seja o maior herdeiro. Contra ela está o fato de não ter filhos, enquanto Mae tem quatro. Acontece que Big Daddy não é exatamente uma figura paternal, extramente grosseiro e prático, não lhe agrada os paparicos que as noras e sua esposa lhe dirigem. Apenas Brick parece significar-lhe alguma coisa, mas também para o pai, o ex- atleta deu as costas. Quando Big Daddy fica ciente de sua condição, decide resolver sua questão com Brick. Por tabela, é revelado a razão do desafeto dele pela esposa: Brick acha que Maggie é de alguma forma responsável pela morte de um grande amigo seu.
Baseado numa peça de Tennesse Williams, Gata em Teto de Zinco Quente (Cat on a Hot Tin Roof, 1958) não é um texto facilmente adaptável ao cinema. Toda a ação toma parte em apenas um dia e quase todas as cenas se passam dentro de casa. No texto original existem diversas insinuações de que Brick talvez fosse homossexual o que foi barrado pela censura. Assim, o comportamento do personagem parece bastante fora de contexto. E de modo geral, o filme é levemente entediante.
Ainda assim, é um ótima recomendação para quem gosta de grandes atuações. Elizabeth Taylor (apesar do tom de voz irritante), Paul Newman e Burl Ives se destacam no elenco, mas todos os atores são muito bons. Afora isso, Maggie é a verdadeira percursora das Desperate Housewives e todas suas congéneres.
Trailer:
# Billy Elliot
Billy é um garoto órfão de mãe que se divide entre cuidar da avô beirando a senilidade e as aulas de boxe. Essas são patrocinadas pelo seu pai que com o filho mais velho -Tony – trabalha nas minas de carvão. Durante o período de greves, a dupla entra em conflito, pois Tony acha que o pai demonstra uma atitude passiva diante da repressão policial e dos “fura-greve”.
Certo dia, Mrs. Wilkinson e suas alunas de balé precisam dividir o salão com Billy e sua classe de boxe. Ao fim de sua aula, o garoto é convidado a juntar-se às bailarinas e acaba descobrindo sua grande paixão. Obviamente, não será fácil para ele revelá-la a sua família. Acontece que Billy é bastante talentoso e Mrs. Wilkinson acredita que ele pode chegar a Royal Ballet School em Londres, o que de certa forma irá determinar o encaminhamento da questão.
Outro ponto interessante é o fato de Billy ser objeto dos afetos da garota Debbie Wilkinson e do garoto Michael Caffrey, sem realmente se envolver com algum dos dois.
Partindo do contraste óbvio entre o desejo de Billy e o de seu pai, a narrativa se constrói em torno da dissolução desde conflito. Billy está determinado a ser um dançarino e expressa diversos sentimentos com sua arte: extâse, agonia, raiva. E uma vez que ele se encontrou na dança, já não poderia fazer parte das carvoarias.
Jamie Bell, então um novato, encarna Billy com perfeição. Além de todos os passos de dança, o ator teve que dar conta de interpretar um garoto que está lutando por sua identidade e pelo seu próprio crescimento. Gary Lewis e Jamie Graven, dão vida ao pai e ao irmão de Billy, respectivamente e também estão ótimos. Porém, ao lado de Bell, o outro destaque é Julie Walters. Mrs. Wilkinson consegue ser rígida e doce ao mesmo tempo e tais características são muito bem balanceadas pela atriz. A trilha sonora é composta por grandes canções de rock britânico e é um deleite a parte.
Por fim, basta dizer que Billy Elliot (Reino Unido, 2000) é realmente uma obra rara: um drama consistente, no qual todos os personagens e conflitos são bem explorados sem abuso de cenas críticas ou trilha sonora grandiloquente. E sobretudo, que nem mesmo os alívios cômicos são capazes de arranhar sua sensibilidade.
The Angry Dance:
# Irma La Douce
Em Paris, um inocente e honesto policial chamado Nestor Patou (Jack Lemon) se apaixona por um por uma prostituta e por não querer vê-la deitar-se com outros homens cria um personagem – Lord X. Durante o dia, ele trabalha como um condenado para durante a noite, travestido de Lord X, jogar cartas com a amada e pagar-lhe o suficiente para que ela não precise de outro cliente durante a semana. O problema é que devido ao excesso de trabalho, Patou está sempre cansado e distante de sua Irma la Douce (Shirley McLaine). Além da atenção de Patou, Irma quer comemorar e gastar com ele todos os centavos da grande quantia que está recebendo. Pois para ela, é uma obrigação sua sustentar seu cafetão.
Como outros personagens das comédias de Billy Wilder, Patou é um homem apaixonado que fará de tudo para ficar com a mulher que escolheu. Ainda que isso implique em uma mudança completa de hábitos e comportamentos. E se de início, Irma debochava de Patou, ela também se apaixona por ele quando sua transformação ocorre.
Shirley McLaine e Jack Lemon possuem uma incrível química juntos. E as diversas confusões que o casal se mete (como prisão, brigas em bares e cenas de fuga) são bastante divertidas. Obviamente há aqui a presença de um humor ingênuo que explora o extremo de cada situação e o talento de seus intérpretes. E embora lide com questões sexuais, não dá espaço para piadas grosseiras e de duplo sentido.
O cenário e o figurino coloridos do filme são muito interessantes e desempenham um papel importante na história. Talvez por essa ter sido derivada de um peça musical. E é uma pena que Wilder não tenha feito um filme nesse estilo. Grande diretor que era, dificilmente teria errado a mão. Mas seja como for Irma la Douce (Estados Unidos, 1963) é uma ótima comédia e porque não, um romance muito bom.
Trailer:
E se eu tivesse que ordená-los:
1º Billy Elliot
2º Bonequinha de Luxo
3º Irma La Douce
4º Anatomia de um Crime
5º Gata em Teto de Zinco Quente
Tags: anatomia de um crime, anatomy of a murder, billy elliot, Bonequinha de luxo, breakfast at tiffany's, Cat on a Hot Tin Roof, Gata em teto de zinco quente, irma la douce
24 24UTC outubro 24UTC 2010 às 19:37 |
vc tinha q voltar a escrever. fato.